terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Eles

Estão descalços.
Assim é o costume
e cheirosa a areia.
Serenos como a noite na roça.
'São valentes de naturezas:
o lobo, o sabiá-barranco, a cobra, o quati, o touro.
Neles aprimoramos o temperamento',
disseram,
'não nos livros'.
A mente é filha do infinito,
e a cada pouco conhecido,
outros hectares a verdejar.
Cabras que não morrem de certezas,
certezas são pra quem não nasceu.
Falo de uma gente que ouve melhor a cada dia.
Entre eles o que vi ali,
então,
sobre um cavalo e sob um chapéu.
'A vida é simples', ele disse.
Disputou com um cão a passagem pela estrada,
não-distraído.,
'Cachorro, por exemplo, não tem dó de gente'.
No dia da dor foi dançar,
acompanhou-o a dor,
a princípio e em meio,
ostentar não tem pasto.
Dá a hora que ao redor
é lugar que não cabe,
poço ermo no turno da suposição.

Conto isso pois fomos apresentados
um dia antes da dor.
E a dor dele doeu em mim,
tão muda era.

Sobre sua gente:
Estão desarmados,
porque têm olhos nas costas
e divindade no sangue.

Estão brincando:
assim são os animais,
os sábios, belos
Homens, ainda meninos,
que vi passeando um dia numa terra do norte
.

Memória

Então eu disse:
Devemos nos separar.

Você, espantado, assentiu
(sede é altitude de mar).

Descemos a ladeira farpada,
trocamos pensamentos,
percorremos o sentido íntimo
da seda e do arrimo

Nos beijamos em noites silenciosas,
nos arredamos sobre animais.

Devemos nos separar

O trem apitava, longínquo,
entre sombras e sobras

O céu estava bonito como se você pudesse voltar
.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Café

Daqui esguicha o leite,
esturricado o bico no peito do sol.
Esta curva é chafariz, não vê?
O que corre:
sangue doce de floresta
(ou sua temperatura
que é minha memória).

Amanheço apavorada.
Não sei se foi o canto,
o ninho,
um arco posto
ou seta.

E ai, me encolho dormente,
eu pasto.
Sou dela a coisa ausente,
o que está no meio do laço.

Bebemos o café
da primeira manhã.

Desde então
o vento levanta
todas as manhãs
(e os olhos seus
que são o brinquedo de Deus).

Indecência

A noite usa os anéis
perdidos em constelações
Seu hálito me desordena,
e rindo, recebo o céu
em meus braços

Que impetuoso!

Tolero bem o caráter
das gigantes
Sereno macio vem
acolhendo meu recolhimento

Mel colhido à força
de ferrão de abelha,
escrevo sobre a felicidade.

Sinto-me tão...
prematuramente livre,
tão
indecentemente
em paz!...

Fogo

Sim, fogo
na ponta do cigarro
que acendo agora
Despretensioso,
embora fale de mim.

Ou fogo na pedra mesmo,
primorosa surpresa,
não uma alegria de arena.

Fogo religioso,
talvez,
consumindo o pavio,
macerando o ar,
empurrando o devoro pro fundo,

Em volta da fogueira,
ritos.
Como em hipnose,
aqueles não se olham
-olham para si.

Estou demasiado exposta à beleza,
Ah, ... perdi-me...

dói-me um pouco,
como estirar-se até o rompimento
e oferecer à boca o fruto.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Na vala

Na vala que desce os sete palmos,
emborcado resto ainda diz oração

Servido do seco, facão no bucho,
confunde vingança e fé
de último em último momento.

Sacava do chão alguma seiva,
era o que se dizia,
veio sangue na boca,
era o que se dizia,
e sede, disse Ele,
-desde a alma até a família

Leve por pecado alheio,
de paisagem e paga,
ser menos uma notícia,
se é que se entende rumo

Este era coisa que não fizesse sombra,
nem do que sofria, nem do calasse,
era areia que ferisse os rastros,
E era a pedra cedendo,
macia,
a um aceno,
um passo seja,
do próprio,
um passo seja,
sussurro.

Nascente

Sustento nos olhos
um rio nascendo.
A nascente do seco
escorre cortando pedras.
Não rio
Estou enquanto antes da paz.

Irmã

Minha ímã,
vem levar esta canoa
Minha ímã,
filha de cumã-uaçu.

Dia em cima,
desce do animal,
do pelo,
deixa a crina

Põe a jóia,
o perfume,
e vem me ver
atravessar

Te espero no alto das coisas
Te espero olhando o mar

Te espero
qual Cristo na cidade do crime:
Ninguém entende como foi que chegou,
como esteve tão longe

Minha irmã,
minha irmã,
minha irmã,
minha irmã.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Oração

Sá, licença,
é preciso de dizer
que estou invurtando em aço de sonho,
em desperdício de arco e tromba de céu,
ou na corredeira de uma fugaz.

Vou com pau de dar em cobra,
que à noite há muitas,
vêm pelas areias,
vão besouros,
escorpiões,
palavras no ninho de Coisa.

Vim sentir o vento,
caminhar até me tirar um pouco,
espantar esse silêncio ossudo.

Pensei nela numa cisma,
foi crescendo um ciso no meu peito,
cada dia, cada dia.

Fui capaz de não falar palavra,
nem trisca de quem me dera,
nem fôlego de bem-querer.

Por cima a cosmosura,
por baixo a serpente...

Vinha de vestido me amanhecendo na notícia,
emprenhava meu coração a passo de peçonha,
a malvada sorria e sorria.

Olhava meu olhar por dentro,
imprimia conhecimento de favo em minha boca,
mentia como quem louvava.

Por cima a cosmosura, por baixo a serpente.

E agora virou foi vão em entre meus braços,
o quem de que preciso com febre,
zunido de vespa no ouvido,
e essa areia crescendo por cima,
Meu Deus e agora,
céu o quê,
sentimento ermo,
que apavorado!

Sá, licença,
é preciso já de dizer:
Oí que tô amando dando desperdício,
de estender vida pro mar e pronto,
de consolar o que entornei.

Esconde não, Rei dos Infinitos
Venha, Semente de claridade,
discutir meu merecimento.

Em antes dela eu morria cada vez,
queria caminhar
pra espantar tanta consumição.

Pensei nela de arroubo,
de circo, até,
por todos esses dias.

Agora peço com sede de sertão,
peço o amor,
mão dela,
peço a Deus moela e as tripas.
E leve logo junto meu coração.